O risco de secularizar a música cristã

Nos tempos que correm é cada vez mais urgente passar de uma Igreja de manutenção a uma Igreja missionária. É urgente assumirmos a missão que Jesus nos legou com o pedido que fez aos seus discípulos: “Ide por todo o mundo, anunciai a Boa Nova a toda criatura” (Mc, 16, 15).

O Papa Francisco tem insistido na necessidade de uma permanente saída missionária. Como ele, creio que não seremos verdadeiros discípulos se não formos missionários (Evangelii Gaudium, 120). Toda a acção da Igreja, como tal, não pode esquecer esse anúncio da Boa Nova da salvação: “Jesus Cristo ama-te, deu a sua vida para te salvar, e agora está vivo a teu lado a cada dia, para te iluminar, fortalecer e libertar” (EG 164). É esta a Boa Nova que a Igreja tem de anunciar, e em consequência disso “não pode haver verdadeira evangelização sem o anúncio explícito de Jesus Cristo” (EG 110) e sem recorrer à Sagrada Escritura, que “é a fonte da evangelização” (EG 174).
Estando a preparar-nos para viver os mistérios centrais da nossa fé, a grande festa da Páscoa da Ressurreição de Jesus, parece-me oportuno realçar a importância que o Kerigma ou anúncio da Boa Nova deve ter na acção da Igreja em geral, e na acção da música de inspiração cristã em particular.
O que se pretende numa Igreja missionária é que seja capaz de transmitir e testemunhar o kerigma, o primeiro anúncio. Chama-se primeiro, não no sentido temporal, no sentido de apelar à conversão - como parecia entrever o nº 51 da exortação ‘Evangelii Nuntiandi’, do Papa Paulo VI -, mas no sentido qualitativo “porque é o anúncio principal, aquele que se tem de voltar a ouvir sempre” (EG 164). É, portanto, o anúncio que a Igreja é chamada a transmitir constantemente. Nela também se incluem os músicos cristãos. E deve ser um anúncio explícito de Jesus com base na Sagrada Escritura. Pergunto-me, porém, se é isto que tem feito a música de inspiração cristã, esse género musical cristão que parece ter a evangelização como seu principal horizonte! Ou, por outro lado, se os artistas cristãos se têm sentido Igreja missionária quando escrevem, compõem ou executam um tema musical!

É verdade que não há só um modo para chegar a Deus, e os caminhos a percorrer para se encontrar com Cristo, por meio do Espírito santo, são insondáveis. A verdadeira Igreja de Cristo é plural e não se fecha num só modo de existir. Compreendo, como tal, que possam coexistir vários estilos de música de inspiração cristã e vários tipos de mensagem ou de linguagens.

Contudo, ao reflectir no papel evangelizador que a música de inspiração cristã tem tido ao longo das últimas décadas e ao reflectir na mensagem e no conteúdo dessa música, vão-me surgindo uma série de questões. Não deveriam os artistas cristãos ser claros anunciadores da Boa Nova? Não deveriam apresentar explicitamente Jesus Cristo e basear-se mais na Sagrada Escritura? Será correcto compor e executar temas tão secularizados, que tanto podem referir-se a Jesus como a outra pessoa qualquer? Ou que tanto podem falar do amor de Deus como do amor de dois seres humanos que se amam? Não correremos o perigo de querer ser tão próximos dos destinatários da evangelização, que acabamos por não lhes apresentar senão valores humanos que, embora importantes, não são o mais importante? Não poderemos, desta forma, cair no risco de fazer uma evangelização superficial ou secularizar a música cristã?

Sei que quem compõe e executa temas sem uma mensagem evangélica explícita o faz com boa vontade e intenção. Acredito que que também se pode transformar uma sociedade e uma cultura através deste tipo de mensagens cristãs menos directas. Porém, não seria melhor assumir uma mensagem claramente cristã, tal como o fez o artista Anselmo Ralph com o tema ‘Ensina-me a amar’ do cd 'O Amor é Cego', onde se pode escutar “É Jesus Cristo que me vai ensinar o verdadeiro amor” ou “mas é só pedir a Cristo: me ensina a amar, me ensina a cuidar, pois só tu, Senhor, sabes o que é real amor”?!

Estou cada vez mais convencido que a mensagem de um tema de inspiração cristã deve ser baseada, tanto quanto possível, na Palavra de Deus, e que deve anunciar claramente a Boa Nova, de modo a evitar que, de tanto querermos chegar aos afastados, nos afastemos nós do essencial!

Marcações: O Som de Deus

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