Por falar em música sacra

Em março deste ano o papa Francisco, na recepção aos participantes no Congresso Internacional de Música Sacra, promovido pelo Vaticano, afirmava que o canto litúrgico deve ser inculturado nas “linguagens artísticas e musicais da actualidade” sem “mediocridade, superficialidade e banalidade”.

Para ele, a Igreja deve “salvaguardar e valorizar o rico e multiforme património herdado do passado” e “fazer com que a música sacra e o canto litúrgico sejam plenamente ‘inculturados’ nas linguagens artísticas e musicais da actualidade”.

A leitura desta notícia fez-me pensar na forma como temos usado a música para o sagrado, mormente a liturgia.

As opiniões dos críticos e entendidos não é consensual. Para alguns a música sacra é aquela que fala de coisas sagradas. Outros afirmam que este género musical depende da intenção do autor ao compô-la. Há quem a associe à qualidade técnica com que é composta. Há quem não faça distinções entre música sacra e música litúrgica, e quem afirme que a música sacra era a música composta pelos grandes compositores para as liturgias de outrora, quase sempre compostas em latim, e que a música litúrgica é aquela que se vai compondo actualmente na língua vernácula, com base na Palavra de Deus e para uso exclusivo das celebrações litúrgicas.

Sobre o panorama da música litúrgica em Portugal, o cónego António Ferreira dos Santos, um reconhecido compositor contemporâneo de música sacra, dizia ao jornal Público, numa edição datada de Junho de 2006, que o panorama era desolador, que se usavam melodias banais, acompanhamentos paupérrimos, interpretações deficientes e desadequadas ao conteúdo dos serviços litúrgicos. Já um outro compositor com idêntico reconhecimento, o padre António Cartageno, em entrevista concedida ao Jornal da Madeira em Outubro do mesmo ano, afirmava que o panorama da música litúrgica praticada em Portugal era globalmente positivo. Apesar de reconhecer que em muitos grupos e comunidades celebrantes há cedências à ligeireza e à superficialidade, constatava que a oferta de repertório litúrgico-musical é abundante e de razoável qualidade.

Ao nível da animação musical da Eucaristia nas nossas paróquias e comunidades, as opiniões, gostos e usos são ainda mais diversos. Muitos desculpam-se com a alegria de algumas músicas, e outros com a beleza melódica; uns com a autoria das músicas e outros com a oportunidade das letras; uns preferem a polifonia, mesmo que a assembleia não cante, e outros a música mais popular para que todos cantem; uns usam todo o tipo de músicas adaptadas, mesmo melodias profanas com letras improvisadas, e outros usam exclusivamente cantos que os especialistas de liturgia propõem.

Eu não sou especialista de música sacra ou litúrgica, e todas as afirmações que possa esboçar não são mais do que uma opinião fundamentada na formação dos tempos de Seminário, leituras feitas e experiência de paroquialidade, onde os recursos humanos ou formativos nem sempre permitem a qualidade que alguns liturgistas tanto reclamam.

A meu ver, um dos erros mais recorrentes é a modificação de textos fixos da missa com o intuito de inovar, como é o Acto Penitencial, o Kyrie, o Glória, o Credo, o Prefácio, o Santo, o Pai Nosso, entre outros. Outro erro comum é o uso indiscriminado de mensagens ou melodias que não se coadunam com o momento celebrativo ou a época litúrgica. E o pior deles é a adaptação de melodias profanas para a celebração.

No entanto, parece-me que há muito boa música que, dependendo da assembleia, da ocasião litúrgica e dos recursos disponíveis, pode ser usada com dignidade nas celebrações. É o caso de alguns trabalhos editados para celebrações com crianças ou com jovens, embora não contidos em cancioneiros de música sacra.

Eu costumo dizer que a música litúrgica mais adequada é aquela que se adapta melhor ao objectivo da celebração, isto é, que auxilie a Palavra de Deus, beleza e dignidade da celebração, que seja factor de comunhão, que comova, exalte, louve, que promova a intimidade com Deus e o sentido da oração, que, em última análise, sirva “a glória de Deus e a santificação dos fiéis”.
Como alegava o Papa, é necessário utilizar o património musical “com equilíbrio”, evitando “o risco de uma visão nostálgica ou ‘arqueológica’”.

Marcações: O Som de Deus

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