Carta do 1º Domingo de Quaresma

Lisboa, 14.02.2016

Na cinza dos dias é possível reacender o lume?

A Quaresma coincide com o irromper da Primavera. Kafka escreveu que «o coração dos homens é um inverno gelado». Mas a cada Primavera, a natureza parece vencer esta fatalidade. Por todo o lado avistamos sinais, mesmo se frágeis, de um reflorir.

É extraordinário pensar na vitalidade que leva os ramos despidos a acreditar que vale a pena voltar à estação das folhas e das flores! Aprendemos muito sobre a Vida Interior olhando, por exemplo, para as árvores. Gosto de pensar nelas recordando uma frase conhecida do designer italiano Bruno Munari: «Uma árvore é uma semente que cresce devagar e em silêncio». O nosso crescer também é assim!

A Quaresma é um tempo simbólico, a começar pelo nome. Quaresma vem de Quarenta: 40 foram os anos que o Povo de Deus passou no deserto a preparar a sua entrada na Terra Prometida (Ex 16,35); e Jesus esteve 40 dias preparando-se para a Sua Missão (Lc 4,1-13). Nós temos também agora os nossos quarenta dias em vista da Páscoa. Claramente este é um tempo para intensificarmos a nossa vivência cristã, transformando este punhado de dias numa oportunidade. É tão fácil cair no pessimismo ou então navegar no pragmatismo acrítico. A Quaresma vem para agitar as águas, questionar instalações, romper com derrotismos. E somos ajudados por três expressões do património espiritual cristão:

  1. A oração. A oração é a expressão da confiança que podemos ter em Deus. A oração atualiza a certeza de que somos ouvidos, acolhidos, abraçados. Como na parábola que Jesus conta, o Pai avista-nos, corre ao nosso encontro, abraça-nos e cobre-nos de beijos (Lc 15, 20). A oração celebra essa intimidade. Na oração não ficamos apenas a olhar para Deus, mas o Espírito Santo ajuda-nos aí a que nos olhemos (a nós próprios e ao mundo!) com os olhos de Deus.
  2. O jejum. Vivemos triturados na digestão que o mundo faz de nós. Rapidamente o Ser fica relegado e substituído pela corrida ao Ter. Corremos de um lado para outro, reféns e instrumentos, mais do que autónomos e criativos. Ora o jejum (por exemplo, comer menos ou evitar o supérfluo, consumir menos, criticar menos, etc) corresponde a um ato espiritual, pois amplia o campo da nossa liberdade. Sem darmos conta, são tantas as correntes que nos prendem e as dependências que nos diminuem! O Jejum cria novas disponibilidades, possibilita um melhor exercício do pensamento e do discernimento, melhora inclusive o sentido de humor...
  3. Ao jejum está ligada a prática da esmola, que tem a sua modalidade mais autêntica na condivisão. O jejum abre interiormente o nosso coração aos outros. A esmola testemunha-o no compromisso solidário por um mundo fraterno. Lê-se no profeta Isaías: «O jejum que Eu quero não será antes este: quebrar as cadeias injustas, desatar os laços de servidão...? Não será repartir o teu pão com o faminto, dar pousada aos pobres sem abrigo, levar roupa aos que não têm com que se vestir e não voltar as costas ao teu semelhante?» (Is 58,6-7).

José Tolentino Mendonça

Marcações: ZAP 2016

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