V.O.A. é a caminhada quaresmal CJ de 2017

Iniciámos a Quaresma e, como é habitual, preparámos para ti uma caminhada que te pode auxiliar neste tempo litúrgico.

Nos últimos três anos apostamos em reunir na ZaP testemunhos de vários quadrantes. Porém, este ano, achamos que era altura para uma viragem. Este ano queremos oferecer à tua vida um imperativo: VOA! 
Na base estão duas mensagens do Papa Francisco. A mensagem para a Quaresma de 2017 e a mensagem aos jovens do documento preparatório para o Sínodo dos Bispos que dedicará à juventude em 2018, num voo que durará da Quarta-feira de Cinzas à oitava da Páscoa.
Baseamo-nos no tripé: Ver, Ouvir e Agir. Ver de olhar, de ler, de ter atenção. Ouvir de escutar. Terás oportunidade de, em conjunto com a mensagem, ouvir a cada dia, uma das músicas da nossa playlist. A terceira e última parte compete-te a ti, de sair da frente do teu smartphone, computador ou tablet e fazeres a parte que te pertence na comunidade.

A Quaresma pode-nos saber a terra, mas ela fala-nos, sobretudo, de como podemos voar. Somos peregrinos da vida. Necessitamos de caminhar, numa perpétua mudança, numa busca constante. Ir até Deus na capacidade de lermos os sinais do dia-a-dia. Deus é o ponto de partida de todos os dias. É Ele o sol que se levanta e que nos faz levantar.

Sim, a Quaresma fala-nos, antes de tudo, de como voar. Não imaginamos a vastidão do belo que podemos empreender num voo livre. Ao voo chegamos com os nossos medos despidos. A Quaresma é o tempo propício para que nos dispamos deles, para sair dos nossos erros. Só voa quem deixa de parte os seus medos e coloca a sua confiança em algo superior.

É um tempo propício de reconstrução. Rainer Maria Rilke, num dos seus poemas, lembra-nos a sua experiência ao olhar para a destruída estátua da Vénus de Milo, em Paris. A estátua parecia-lhe entoar uma canção de mudança de vida. É a nossa capacidade para a beleza, para o infinito, que nos transforma — se permitirmos. O olhar é sairmos de nós mesmos, é sermos capazes de sempre nos “espantarmos”. É a capacidade primária de lermos uma realidade que nos pode mudar, enquanto a mudamos. Isso exige movimento e compaixão. Por isso, como Francisco nos exorta, «Somos convidados a ouvir e meditar com maior assiduidade, neste tempo, a Palavra de Deus.». Em Deus nos movemos e existimos (cf. Atos dos Apóstolos). É a Palavra que sai do ventre de Deus que quebra o silêncio e que dá lugar à interação entre Deus e nós. Quais serão as nossas respostas? Daí surge a nossa sinfonia. Nem sempre há um “tratado” entre o amor de Deus e o nosso. É um drama que vive na vida de cristãos e judeus. É isso mesmo que canta Leonard Cohen. Ele canta a necessidade de Deus, o conhecimento e familiaridade que com ele temos. Canta a liberdade e a segurança de um baluarte.

Ao voo, é também necessário o pousio. Um campo fértil, onde possamos colocar os pés. Uma terra como a de Nárnia, onde os justos possam amanhecer com o sol, depois da dádiva. A esta “Terra Prometida” chegamos — como na canção de Bruce Springsteen — depois de irmos em direção à tempestade que nos assola e nos põe à prova; neste lugar que brota do chão da nossa vida, onde devemos de rasgar os sonhos que não nos levam a lado algum. É com Deus ao nosso lado que chegamos, com a familiaridade do Seu amor. É este Homem que, como na música do Nobel da Literatura (Bob Dylan), perdoa um beijo mal-intencionado, coloca-se a nosso lado, na nossa história, e empresta-nos a capacidade de ir mais além, mesmo se não nos jejua de todas as guerras, como gostaríamos.

Afinal de contas, descermos ao mais profundo de nós próprios, para daí emergirmos com alegria, não é tão ruim assim. Basta-nos ter paciência e perseverarmos, ainda que possa haver necessidade de um voo em contramão. O tempo, — como há dias D. António Couto referia — deve ser o nosso verdadeiro Templo. É nele que Deus habita connosco e em nós.

Boa caminhada, bons voos!

Marcações: Quaresma

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