Cantar em casamentos

O Manuel e a Maria, nomes fictícios, são dois jovens, com os seus vinte e tantos anos, que se vão casar em breve. A conversa com eles decorreu com o entusiasmo próprio de quem está ansioso pelo casamento e quer que seja um grande acontecimento nas suas vidas.

Porém, quando a Maria me mostrou uma folha com as músicas que tinha escolhido, de acordo com as propostas que lhes tinham sido apresentadas pelo grupo musical que haviam contratado para o efeito, o meu constrangimento foi notório. Creio que é um constrangimento comum em muitos outros sacerdotes em circunstâncias idênticas. Por mais que tenhamos abertura para aceitar músicas que não sejam muito litúrgicas, a maioria das vezes somos confrontados com temas musicais que pouco ou nada têm a ver com a cerimónia religiosa e que pouco abonam o sentido do sacramento como presença especial e visível de Deus nas vidas daqueles jovens noivos.

Sou pároco há vários anos e a situação tem-se repetido cada vez com mais frequência. A jovem Maria tinha uma lista de temas para que eu desse o seu aval (valha-nos ao menos esse respeito!), e apenas um ou dois falavam de Deus ou continham uma mensagem claramente cristã. Para ser sincero, nem sequer me agradam muitos os temas clássicos que apenas transformam o momento num espectáculo a pedir palmas. Mas há temas clássicos que, em latim, ao menos não se dispersam do sentido da fé. O problema reside em escolhas que, apesar de falarem do amor, são completamente profanas.

São às dezenas as páginas que podemos googlear na internet em busca de grupos que animam casamentos. Na maioria delas, as propostas dos temas musicais estão disponíveis para os noivos escolherem. Façam este exercício e darão conta, como eu, que a maioria dos temas à disposição são temas comerciais de filmes ou de artistas famosos, como por exemplo: “You rased me up” e “Hasta Mi Final” dos Il Divo, “Somebody to love” dos Queen, “Just the Way You Are” de Bruno Mars, “She” de Elvis Costello, “Nothing at All” de Ronan Keating, “Your Song” de Ewan McGregor, “Thank You For Loving Me”, de Bon Jovi, “Thinking Out Loud” de Ed Sheeran, “All Of Me” de John Legend, “Como é grande o meu amor por você”, de Roberto Carlos, “Eu Sei”, de Sara Tavares, “Tudo o que te dou” de Pedro Abrunhosa, ou ainda a banda sonora do filme francês “Les Choristes”, “O fantasma da ópera”, “A bela e o monstro”, entre outros.

Respeito o trabalho de tantos que se dedicam a esta missão de animar musicalmente casamentos. Quero pensar que os objectivos que estão por detrás deste tipo de animação musical não é nem o dinheiro nem o espetáculo. Que o que está por detrás é o amor de Deus no qual se quer fundar o amor daqueles noivos que se abeiram do altar. De facto não me compete fazer juízos de valor, embora estranhe um pouco que, aos noivos, seja mais fácil dispensarem umas centenas de euros para estes músicos, para as flores ou outros arranjos, e que tenham dificuldade em efectuar um contributo de umas dezenas de euros para a cerimónia ou a paróquia onde se realiza o sacramento. Mas também não é esse o tema da nossa reflexão. Sendo um casamento religioso, as escolhas dos temas deveriam, ao menos, possuir uma mensagem bíblica ou uma mensagem de cariz cristão. Talvez fosse de equacionar, da parte dos agentes pastorais competentes, a obrigatoriedade de formação litúrgica para estes grupos. Fica a dica.

Tenho consciência da secularização que vai entrando nestes casamentos e que há muito mais por detrás da situação relatada. O problema não se resume à escolha de temas musicais. Ainda há dias alguém me contava que tinha sido contactado por uns noivos para preparar o casamento e que, para além de Muse para a entrada do noivo e Adele para a entrada da noiva, queriam um padre divertido que fizesse divertir a cerimónia e as pessoas, e ainda perguntaram se podiam escolher a homilia. Como se tudo isto se comprasse na loja dos vestidos de noiva juntamente com o buquet. 

Marcações: O Som de Deus

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